terça-feira, 14 de agosto de 2007

Louça

Hoje acordei bem mais cedo e

Andei pela casa bem devagar.

Passei a mão pela cadeira,

Olhei para estante...

Sua foto sorriu como antes,

Lembrei-me daquele lugar,

A lua nunca se cansou,

O beijo não vai terminar.

E eu sempre tive a certeza:

Você para sempre em diante!

Esse meu delírio constante

É louça querendo quebrar.




Hoje eu dormi bem mais cedo e

Saí de mansinho pra te apagar.

Passei a mão pela cabeça,

Virei pra estante...

Sua foto olhou como antes,

Eu nunca saí do lugar.

A lua sempre me chamou

E tenta me hipnotizar.

E eu sempre tive a certeza

Que há um tesouro pra desenterrar!

Esse meu delírio constante

É louça querendo quebrar.


quarta-feira, 30 de maio de 2007

Escuro

Andando no escuro

sou eu em minha vida.

Em passos miúdos, andando.

E contra meus pés, apenas as pernas.

Indecisas, imprecisas.

Andando, caindo, levantando.

Correndo no escuro, com medo.

Não paro, não penso, não nada.

Nada no escuro, nem eu.

Não estou aqui e aqui não está.

Nada está.

Nem lugar pra chegar,

Pra voltar,

Pra sentar e chorar.

O nada no escuro.

Sem perna, sem eira, sentido.

Perdido, aleijado, louco.

Louco.

Escuro.

Mão.

Não.

Pare!

Pare...

Escuro, estranho.

Extinto





segunda-feira, 16 de abril de 2007

Céu de Cinzas

Janela que me sopra

Os viços da juventude,

O saber dos outonos,

O choro dos rebentos...

Leve afora meus soluços,

Bagunce minhas certezas,

Embarace minha letras

E as faça mais alegres,

Pois sorrisos já não tenho.

Nem o vulto da esperança,

Nem o novo das manhãs,

Nem as noites que serenam

Aliviam o rebuliço

Que me faz sangrar em choro.



Busco aquilo que não quero

E me entrego à loucura.

Vivo aqui, no labirinto,

Torto, sujo, aparente.

Pudera eu tomar-lhe o sopro,

fazer-me cinzas de papel

E me projetar à tempestade.

Meus olhos de criança brilham,

Minhas lembranças iluminam,

Minhas pegadas cicatrizam.



Viva eu, homem de cinzas!

Que não precisa de caminhos,

Que leva ao vento o seu destino,

Que mente a si mesmo

Olhando da janela.

Sozinho

Confunde saber que sou tantos.

Dói é saber quem não sou,

Olhar e não ver aonde vou,

Pular sem saber se alcanço.



Sou pedra sem canto.

Floresço nas margens da vida,

Pequena amostra incontida

Do riso escondido num pranto.



Caí! Sou palavra ao chão.

Perdida mas não esquecida.

A única coisa viva

De quem tem amarras na mão.



Lamento não ser passarinho.

(...).

Abelha que vai distante,

Estrela de um habitante,

Mar de um mundo sozinho.

Cidade dos Ratos

As pessoas passam por largas avenidas.

Apressadas, descontentes, maquinadas.

Vão e vêm, multiplicando-se.

Os automóveis refletem a palidez.

Os arranha-céus se esbarram,

Agridem-se sob o céu de cinzas.

Formam um jardim às avessas,

De tulipas envidraçadas e

Colibris de aço.

O granito se eleva da terra

Ousando alçar os céus.

A chuva cai, sem portanto repousar:

Vai agitar a cidade submersa,

Habitada por outros ratos.

Talvez mais humanos que nossos semelhantes.

Valem estes, menos que um naco de queijo.

Amontoam-se entre os cruzamentos,

Empilham-se nos elevadores,

Reviram-se nos becos.

São vermes brotando do asfalto

Com suas almas malcheirosas

E suas verdades afins.

Nascemos assim, e o esgoto

Que alimenta nossos umbigos

Corre a céu aberto.

Para Sempre

As máscaras foram às chamas.

A negra fumaça passou em branco.

Restou-me virar e partir.

Os velhos fardos, ao fogo,

Aliviaram-me os ombros.

As chamas secaram os olhos,

Os prantos, os sonhos.

As árvores vestiam-se pálidas,

Ocas, quietas.

Passei entre folhas e sombras.

Meus documentos,

Por sobre as costas,

Foram à lama.

Despi meu corpo,

Tirei meus óculos,

Olhei minhas mãos:

Tão estranhas,

Tão vazias.

À frente um rio.

Andei.

Andei.

Bebi e me deixei beber.

O leito me tragou sem vontade.

Os peixes, curiosos,

Mordiscavam minhas pernas.

O rio, preguiçoso,

Enfim me engoliu.

E eu, enfim,

Digeri o que sou.

Para sempre.

Passou

Um sonho,

Assim pareceu:

Várias cores,

Poucos amores,

Muita saudade.

Saudade de antes,

Daqueles,

Daquilo.

Um pouco,

Assim terminou:

Não deu tempo

De ver todo o quadro.

Não deu certo ajustar toda idéia.

Não deu tempo pra fotografia.

Uma pena.

Nem parece...

Passou uma vida.

Sétimo Sentido

Não tenho quase nenhum tempo,

Um pouco ainda de vergonha,

As minhas horas vão embora,

Espaço-tempo de maconha.

Quero fazer tudo ao avesso,

Um grande vôo pelo mar,

Nadar do céu ao horizonte,

Não tenho muito pra contar.

Mas tenho horas em que choro,

Tenho segundos de sorriso,

Uns trinta anos pela frente,

Gente que fez amor comigo.

Mas gosto mesmo é de foder,

Fazer do sujo o meu amigo,

Quebrar as regras do sistema,

Tocar nos dentes do perigo.

Não esquecer o que eu sou

E o que eu tenho pra fazer.

Pra onde fui, aonde vou e

O que vou ser quando crescer.

Preciso ter muita coragem

Pra enfrentar tua cabeça:

As tuas frases me agridem

Pedindo que eu aconteça.

Mas aconteço para quem?

Pagar o luxo dos teus filhos?

Embriagar suas mulheres?

Encher de carro o inimigo?

Mas eu não vim pra lhe servir,

Que fique claro e entendido.

Não quero trilho pros meus pés,

Eu quero o sétimo sentido!

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Ser Vivo




Nessa confusa caixa


Em que palavras voam,

Onde se fazem sonhos,

Há uma pequena gaveta

Cheia de facas:

Minha cabeça é uma

Sinuosa interrogação,

Fazendo-me transbordar

De vontades,

Uma prisão que guarda

Todos os meus anos.


Nela, sim,

Estou a contemplar

Toda beleza e

Rancor que a humanidade

Me oferece,

Estou a me fartar de

Todo o meu eu,

De todos vocês,

Em todos os seus detalhes.

Vivo, sim,

Entalhando um ser,

Que apenas quer ser

Vivo.


Essas coisas

E se essas coisas

Tomassem forma?

Esfriassem e saíssem

Da fôrma, terminassem

Essa obra?

E se as luzes

Se acendessem,

Os nós desatassem,

A estrada enfim

Terminasse?

E se o fim iniciasse?

Aquele que nasce

Enfim viesse,

E se tudo o que

Eu dissesse

Se transformasse,

Ou todos os que

Me vissem enxergassem

Não só a pele,

Não só a face,

Mas tudo o que sou

Por detrás do disfarce?



Davi Miranda